Oceanos Profundos
- Natureza - CAUAC UAXAC

- 22 de mar.
- 4 min de leitura
Atualizado: 30 de mar.

Oceano
Quem sou...?
Permeado por esta dúvida, apenas reconheço traços do que não sou…
Não sou a pedra, o Sol ou as nuvens.
Não sou bicho, planta ou vento que soa na colina.
Transpassado pelo incognoscível...
Quem sou?
Tão pouco compreendo o consciente de minha existência;
do inconsciente, um oceano a ser mergulhado.
Restam dúvidas; penetram-me, transcorrem pelo meu ser, sentimentos e incerteza. Neste iceberg deste profundo oceano, o pouco que ressoa são os destroços de outrora. Transbordado pela materialidade, sou apenas retalhos desgastados; frestas, perguntas?
Procura-se, coração, a poesia!
Busque pequenino, teu caminho é percorrer; peregrinar,
mergulhar neste oceano de ensinamentos...
— Natureza
Tratar da natureza humana - se é que existe natureza humana — e suas ecologias, não é tarefa simples, tão pouco fácil. Necessário preparar-se, não somente com teorias e técnicas, é preciso poética em seu viver! Este preparo não finda ou cessa, a todo momento é preciso conhecer a si; antes de tudo, é começar! Mesmo que algum resultado pareça distante ou inalcançável, mergulhe em si... Nesta jornada de investigação, não à toa, retornar a essas águas tornou-se nadar contra a corrente. Desafiadora tarefa de mergulhar nas oceânicas profundezas do ser. Foi necessário tomar fôlego — muito fôlego — antes, adquirir a capacidade necessária para tão proeza. Assim se faz, Ciência e Poesia!
Afastado deste espaço, por mais tempo do que gostaria, mergulhei em meu oceânico ser; nas profundezas, para além de onde a luz e escuridão entrelaçam seus corpos, deparei-me com as sujeiras em zonas abissais; e livrar-se de tudo isso, reconhecer toda hipocrisia...
E dói, dói, dói me expor assim
dói, dói, dói, despir-se assim.
Mas se eu não tiver coragem
Pra enfrentar os meus defeitos
De que forma, de que jeito,
Eu vou me curar de mim?
Me Curar de Mim — Flaira Ferro
Inundado em lágrimas, em meio a este mergulho nas profundezas abissais, me fiz um com Oceano... o lamento que ecoava das águas, ressoava intensamente em mim. Por dias à deriva, não era mais um mero visitante, minha presença um incômodo. Carregado por uma massa silenciosa que flutuava onde antes havia vida em abundância, os seres que resistem e ali ainda habitam incomodavam-se com minha existência. Em meio à rebentação, um silêncio ensurdecedor rompeu todo meu ser, compreendi: não era minha presença que incomodava, mas sim aquilo que carregava comigo.
Naquela imensidão oceânica, qualquer tentativa minha de comunicação silenciava-se na arrebentação, trazia comigo, inquietante peso de uma superfície que não mergulha. As marcas de uma humanidade consumista, mas que não reconhece; que descarta, mas não retorna. Nas profundezas — onde nada se perde, tudo se acumula — Oceano me devolvia aquilo que insistimos em esquecer, marcando profundamente meu ser.
Por mais que, em muitas passagens dessas palavras Oceano tenha sido símbolo da nossa psique; não é apenas símbolo ou figurante nos processos biológicos. Oceano e a vida que nele habita — aliás, esquecemos que a vida ali surgiu — auxilia na regulação do clima planetário (correntes oceânicas), produz grande parte do oxigênio que respiramos (fitoplânctons e algas marinhas), absorve o excesso de calor que geramos, etc... e ainda assim, presenteamos diariamente com toneladas daquilo que não queremos ver. Talvez porque nunca aprendemos a olhar para as profundezas; nem as do oceano, tão pouco as nossas. Desde cedo, somos educados a observar a superfície; a responder, produzir, competir. Mas não a mergulhar, não a sustentar o silêncio das profundezas, não a reconhecer aquilo que precisa ser transformado.
Humano, demasiado humano, habita em sua consciência a incapacidade de sustentar profundidade. Somos capazes de armazenar conhecimento, história, mensurar os impactos que causamos, desenvolvemos técnicas e tecnologia que podem nos conduzir a uma vida mais sadia; mas não aprendemos a pertencer, desconhecemos o amor e conviver! Estamos sendo saturados de estímulos, sequer aprendemos a sabedoria de escutar o silêncio. Nossa educação, falha ao não ensinar a reconhecer aquilo que precisa ser transformado em nós, a cultivar onde habitamos! E então repetimos, nas águas do planeta, aquilo que evitamos enfrentar em nossas próprias profundezas.
Oceano adoece, e não é distante — exemplo a tentativa de desavanço nas medidas protetivas da APA da Baleia Franca. Está no ar que respiramos, no clima que vem se tornando mais extremo e caótico; na vida que se perde silenciosamente. Mas talvez o mais inquietante não seja isso. Talvez seja perceber que continuamos educando gerações para a superfície. Para produzir, consumir, competir...
— Mergulhar em si? Sentir? Cuidar? Cultivar a vida?
— Para quê, de que seria útil?
Somos tolos, cara pálida. Na sabedoria das palavras de Krenak, a vida não é útil, experienciá-la é transcendente; precisamos de sanidade para sentí-la. Se quisermos transformar o rumo, não basta olhar para o oceano. Será preciso coragem para atravessar as próprias águas. Porque, no fim… não protegemos aquilo que não conhecemos. E não conhecemos aquilo que não temos coragem de mergulhar.
Agradecimentos
Meus agradecimentos...
ao Grupo de Pesquisa em Ecologia Humana do Oceano — https://www.ecologiahumana.info/ — na figura da pesquisadora Dra. Danielle Rodrigues Awabdi; ao Instituto Australis que conduz o Projeto Franca Austral — https://baleiafranca.org.br/ — na figura da pesquisadora Dra. Karina Groch — que inspiraram a escrita dessas palavras.
e ao Curso de Ciências Biológicas da Universidade do Extremo Sul Catarinense — UNESC, que organizou e foi palco desses encontros; também proporcionando diálogos pertinentes aos dias atuais "Planeta Água — a cultura oceânica para enfrentar as mudanças climáticas no meu território".



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