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Oceanos Profundos

Atualizado: 30 de mar.


Imagem gerada por I.A.
Imagem gerada por I.A.

Oceano


Quem sou...? 

Permeado por esta dúvida, apenas reconheço traços do que não sou…

Não sou a pedra, o Sol ou as nuvens.

Não sou bicho, planta ou vento que soa na colina.


Transpassado pelo incognoscível...

Quem sou? 

Tão pouco compreendo o consciente de minha existência;

do inconsciente, um oceano a ser mergulhado.


Restam dúvidas; penetram-me, transcorrem pelo meu ser, sentimentos e incerteza. Neste iceberg deste profundo oceano, o pouco que ressoa são os destroços de outrora. Transbordado pela materialidade, sou apenas retalhos desgastados; frestas, perguntas?

 

Procura-se, coração, a poesia!

Busque pequenino, teu caminho é percorrer; peregrinar,

mergulhar neste oceano de ensinamentos...


Natureza



Tratar da natureza humana - se é que existe natureza humana e suas ecologias, não é tarefa simples, tão pouco fácil. Necessário preparar-se, não somente com teorias e técnicas, é preciso poética em seu viver! Este preparo não finda ou cessa, a todo momento é preciso conhecer a si; antes de tudo, é começar! Mesmo que algum resultado pareça distante ou inalcançável, mergulhe em si... Nesta jornada de investigação, não à toa, retornar a essas águas tornou-se nadar contra a corrente. Desafiadora tarefa de mergulhar nas oceânicas profundezas do ser. Foi necessário tomar fôlego muito fôlego antes, adquirir a capacidade necessária para tão proeza. Assim se faz, Ciência e Poesia!

Afastado deste espaço, por mais tempo do que gostaria, mergulhei em meu oceânico ser; nas profundezas, para além de onde a luz e escuridão entrelaçam seus corpos, deparei-me com as sujeiras em zonas abissais; e livrar-se de tudo isso, reconhecer toda hipocrisia...


E dói, dói, dói me expor assim

dói, dói, dói, despir-se assim.

Mas se eu não tiver coragem

Pra enfrentar os meus defeitos

De que forma, de que jeito,

Eu vou me curar de mim?


Me Curar de Mim Flaira Ferro


Inundado em lágrimas, em meio a este mergulho nas profundezas abissais, me fiz um com Oceano... o lamento que ecoava das águas, ressoava intensamente em mim. Por dias à deriva, não era mais um mero visitante, minha presença um incômodo. Carregado por uma massa silenciosa que flutuava onde antes havia vida em abundância, os seres que resistem e ali ainda habitam incomodavam-se com minha existência. Em meio à rebentação, um silêncio ensurdecedor rompeu todo meu ser, compreendi: não era minha presença que incomodava, mas sim aquilo que carregava comigo.

Naquela imensidão oceânica, qualquer tentativa minha de comunicação silenciava-se na arrebentação, trazia comigo, inquietante peso de uma superfície que não mergulha. As marcas de uma humanidade consumista, mas que não reconhece; que descarta, mas não retorna. Nas profundezas — onde nada se perde, tudo se acumula — Oceano me devolvia aquilo que insistimos em esquecer, marcando profundamente meu ser.

Por mais que, em muitas passagens dessas palavras Oceano tenha sido símbolo da nossa psique; não é apenas símbolo ou figurante nos processos biológicos. Oceano e a vida que nele habita — aliás, esquecemos que a vida ali surgiu — auxilia na regulação do clima planetário (correntes oceânicas), produz grande parte do oxigênio que respiramos (fitoplânctons e algas marinhas), absorve o excesso de calor que geramos, etc... e ainda assim, presenteamos diariamente com toneladas daquilo que não queremos ver. Talvez porque nunca aprendemos a olhar para as profundezas; nem as do oceano, tão pouco as nossas. Desde cedo, somos educados a observar a superfície; a responder, produzir, competir. Mas não a mergulhar, não a sustentar o silêncio das profundezas, não a reconhecer aquilo que precisa ser transformado.

Humano, demasiado humano, habita em sua consciência a incapacidade de sustentar profundidade. Somos capazes de armazenar conhecimento, história, mensurar os impactos que causamos, desenvolvemos técnicas e tecnologia que podem nos conduzir a uma vida mais sadia; mas não aprendemos a pertencer, desconhecemos o amor e conviver! Estamos sendo saturados de estímulos, sequer aprendemos a sabedoria de escutar o silêncio. Nossa educação, falha ao não ensinar a reconhecer aquilo que precisa ser transformado em nós, a cultivar onde habitamos! E então repetimos, nas águas do planeta, aquilo que evitamos enfrentar em nossas próprias profundezas.

Oceano adoece, e não é distante — exemplo a tentativa de desavanço nas medidas protetivas da APA da Baleia Franca. Está no ar que respiramos, no clima que vem se tornando mais extremo e caótico; na vida que se perde silenciosamente. Mas talvez o mais inquietante não seja isso. Talvez seja perceber que continuamos educando gerações para a superfície. Para produzir, consumir, competir...

— Mergulhar em si? Sentir? Cuidar? Cultivar a vida?

— Para quê, de que seria útil?


Somos tolos, cara pálida. Na sabedoria das palavras de Krenak, a vida não é útil, experienciá-la é transcendente; precisamos de sanidade para sentí-la. Se quisermos transformar o rumo, não basta olhar para o oceano. Será preciso coragem para atravessar as próprias águas. Porque, no fim… não protegemos aquilo que não conhecemos. E não conhecemos aquilo que não temos coragem de mergulhar.




Agradecimentos


Meus agradecimentos...


ao Grupo de Pesquisa em Ecologia Humana do Oceano — https://www.ecologiahumana.info/ — na figura da pesquisadora Dra. Danielle Rodrigues Awabdi; ao Instituto Australis que conduz o Projeto Franca Austral — https://baleiafranca.org.br/ — na figura da pesquisadora Dra. Karina Groch — que inspiraram a escrita dessas palavras.

e ao Curso de Ciências Biológicas da Universidade do Extremo Sul Catarinense — UNESC, que organizou e foi palco desses encontros; também proporcionando diálogos pertinentes aos dias atuais "Planeta Água a cultura oceânica para enfrentar as mudanças climáticas no meu território".

 
 
 

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